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As mulheres não podem continuar falando sozinhas sobre a violência que sofrem

Por Rodrigo Spada

postado em 19/03/2026 11:26 / atualizado em 19/03/2026 11:36

A perniciosa ideia de que a violência contra a mulher é um problema privado, restrito ao ambiente doméstico, já não tem a mesma força que teve no passado. Hoje sabemos que esta é uma questão pública, uma grave violação de direitos e um desafio que exige vigilância de toda a sociedade. Esse tabu não caiu sozinho; foi derrubado pela atuação de mulheres que se levantaram contra a violência. Agora que o tema está na arena pública, não é aceitável que as mulheres sigam falando sozinhas sobre a violência que sofrem. Os homens e as instituições públicas e privadas precisam entrar neste debate e precisam, sobretudo, agir.

A participação ativa dos homens é indispensável por um fato tão óbvio quanto incômodo: a violência contra a mulher não existe sem os autores dessa violência — que são, em sua imensa maioria, homens. Portanto, enfrentar esse problema exige que nós também façamos parte da mudança cultural necessária para superá-lo.

Há modos distintos de fazer isso. Não compactuar com comportamentos indutores de violência, não calar diante de atos e palavras que ameaçam a dignidade das mulheres, mesmo quando elas não estão presentes. É uma tarefa para ser feita também entre homens, nos grupos de amigos, no trabalho, nos espaços onde muitas vezes se formam e se reforçam comportamentos que a sociedade acaba naturalizando. Homens, quando pais, ganham novo papel nesta tarefa. Quando pais de meninos, papel ainda mais relevante, porque devem ser exemplo. Sabemos todos que os filhos aprendem menos com discursos e muito mais com aquilo que veem no cotidiano: na forma como tratamos as mulheres, como falamos sobre elas e como reagimos diante de situações de desrespeito.

Mas essa responsabilidade não é apenas individual. Ela também é institucional. As instituições fazem parte do tecido social. Elas ajudam a moldar valores, comportamentos e prioridades da sociedade. E quando uma realidade tão grave se impõe diante de todos nós, não há espaço para o silêncio.

É nesse espírito que a Afresp (Associação dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de São Paulo), entidade que presido, participa desse debate. Nossa missão principal é defender uma carreira pública essencial ao funcionamento do Estado. O enfrentamento da violência contra a mulher não faz parte, a princípio, da nossa missão precípua. Ainda assim, entendemos que as instituições têm responsabilidade social. Elas devem participar do debate público, estimular reflexões e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.

Por isso realizamos na Afresp um evento de apresentação e adesão ao programa Antes que Aconteça, iniciativa da senadora Daniella Ribeiro voltada à prevenção e ao enfrentamento da violência contra as mulheres. O programa busca fortalecer redes de proteção, ampliar o acolhimento às vítimas e integrar diferentes áreas do poder público para agir antes que a violência se transforme em tragédia.

Entre as iniciativas previstas estão o fortalecimento do acolhimento especializado às vítimas, com atendimento multidisciplinar envolvendo apoio jurídico, psicológico e social. O programa também aposta em campanhas educativas e ações de conscientização, voltadas a enfrentar a cultura de violência e ampliar a informação sobre direitos e mecanismos de proteção. Outro eixo importante é a promoção da autonomia econômica das mulheres em situação de vulnerabilidade, com incentivo ao empreendedorismo feminino e políticas que ampliem as condições de independência financeira — um fator decisivo para que muitas mulheres consigam romper ciclos de violência.

O programa prevê ainda grupos reflexivos para homens autores de violência, que buscam trabalhar a responsabilização e a reeducação de agressores, contribuindo para reduzir a reincidência da violência doméstica.

Quando uma instituição abre espaço para discutir temas como esse, ela ajuda a ampliar a consciência coletiva, fortalece redes de proteção e afirma de forma clara quais valores devem orientar a convivência em sociedade. Uma sociedade em que as mulheres possam viver com segurança, com respeito e com dignidade.

Rodrigo Spada é Auditor Fiscal da Receita Estadual de São Paulo e presidente da Febrafite (Associação Nacional das Associações de Fiscais de Tributos Estaduais) e da Afresp (Associação dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de São Paulo). Formado em Engenharia de Produção pela UFSCar e em Direito pela Unesp, com MBA em Gestão Empresarial pela FIA.

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Artigo publicado originalmente no Correio Braziliense. Clique AQUI para acessar!

 

 

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