Por Maria Aparecida Lacerda Meloni
postado em 13/08/2026 12:48 / atualizado em 13/08/2026 12:48
Há uma geração que ficou conhecida como “nativa digital”: pessoas que nasceram em um mundo já conectado, para quem internet, smartphones e inteligência artificial nunca foram novidade, mas simplesmente o modo como as coisas são. Elas não precisaram se adaptar à tecnologia porque cresceram com ela.
Quem viveu o antes e o depois, por outro lado, enxerga coisas que os nativos costumam não perceber. Sabe o que foi preciso superar para chegar até aqui e entende que toda inovação carrega também uma responsabilidade. É dessa intersecção entre experiência e renovação que uma sociedade consegue avançar sem esquecer o caminho que percorreu.
Algo parecido está acontecendo agora nas administrações tributárias brasileiras. Os auditores fiscais que vêm tomando posse em diversos estados são, de certa forma, os primeiros “nativos” da Reforma Tributária: ingressam na carreira num momento em que o país já começou a colocar em prática o maior redesenho do sistema tributário nacional do consumo já feito sob um regime democrático. Sua formação e sua cultura profissional serão moldadas por uma realidade bem diferente daquela que vigorou por décadas.
Os números de 2026 ilustram esse movimento. Sergipe deu posse a 24 Auditores Fiscais Tributários. Roraima recebeu a segunda turma aprovada em concurso, com mais 20 Auditores Fiscais de Tributos. O Amapá empossou 16 novos Auditores da Receita Estadual e 37 fiscais. No Rio Grande do Norte, outros 49 auditores passaram a integrar o quadro da administração tributária. Em São Paulo, o concurso garantiu o ingresso de 200 profissionais no maior Fisco estadual do país.
Os números importam, mas o simbolismo pesa mais. Esses profissionais chegam justamente quando o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) começa a tomar forma. Vão começar a carreira já estudando um sistema baseado no princípio do destino, na não cumulatividade plena, na gestão compartilhada entre estados e municípios, apoiado em ferramentas tecnológicas que exigem uma administração tributária muito mais integrada.
Mas nenhuma mudança dessa escala se sustenta só com quem está chegando. A implementação da reforma vai depender, e muito, da experiência de milhares de auditores que construíram carreira no modelo anterior. São eles que sabem por que certas estruturas foram criadas, que dificuldades já foram enfrentadas ao longo das últimas décadas e que riscos precisam ser evitados durante a transição. É esse conhecimento acumulado que ajuda a distinguir o que deve ser preservado do que precisa ser transformado.
A reforma mudou a legislação de forma profunda, mas seu sucesso vai depender, sobretudo, de mudança de comportamento e de cultura organizacional, de novas formas de cooperação entre os entes federativos, de competências técnicas ainda em construção, de novos sistemas de informação e de uma outra maneira de entender o papel da administração tributária.
Por isso, cada nomeação realizada em 2026 é também um investimento na sustentabilidade da receita pública que, em síntese, garante ao País realizar as políticas pública essenciais.
O sucesso da reforma tributária vai depender da combinação entre dois elementos: a disposição para inovar com a sabedoria de quem acumulou experiência. É desse encontro entre gerações — a que chega e a que já está lá — que deve sair o Fisco capaz de conduzir o novo sistema tributário e entregar o que a sociedade espera dele: mais simplicidade, mais segurança jurídica, mais justiça social, mais eficiência e um ambiente melhor para o desenvolvimento do país.
Maria Aparecida Lacerda Meloni é Auditora Fiscal da Receita Estadual de Minas Gerais aposentada. Presidenta da Febrafite (Associação Nacional de Fiscais de Tributos Estaduais).
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Artigo originalmente publicado no Poder 360. Clique aqui para acessar.
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