Por Rodrigo Spada
postado em 28/10/2026 14:25 / atualizado em 28/10/2026 14:25
Os adeptos da Teologia da Libertação costumam dizer que a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Nos últimos meses, pude experimentar o significado dessa frase de uma maneira muito verdadeira. Em campanha eleitoral, percorri mais de 400 municípios paulistas, conheci diferentes realidades e conversei com milhares de pessoas. Dessa experiência, trouxe uma convicção: as pessoas não querem necessariamente menos Estado ou mais Estado. Querem um Estado que funcione.
A distinção parece simples, mas diz muito sobre a distância entre o debate político e as preocupações cotidianas da população. Enquanto parte da discussão pública se ocupa em defender um Estado maior ou menor, quem precisa de uma consulta médica, de uma escola para os filhos ou de segurança no bairro está interessado em algo mais elementar: que os serviços sejam prestados no lugar, no tempo, na quantidade e qualidade que satisfaçam suas necessidades.
Ouvi muitas críticas à burocracia, à demora no atendimento e à falta de estrutura dos serviços públicos. Mas seria um equívoco interpretar essa insatisfação como uma rejeição ao Estado. Ela revela justamente o contrário: o quanto as pessoas dependem dele e esperam que cumpra suas responsabilidades.
Para milhões de brasileiros, especialmente os de menor renda, o serviço público representa a principal garantia de acesso a direitos fundamentais. É a ele que recorrem nos momentos de maior necessidade. Não lhes interessa tanto a dimensão da máquina pública, mas sua capacidade de oferecer respostas.
Essa percepção me levou a refletir também sobre quem está do outro lado do balcão.
Sou servidor público há mais de 20 anos e conheço o compromisso de tantos profissionais que dedicam suas vidas a atender a população. Sei também das dificuldades que enfrentam. A falta de investimentos, de infraestrutura adequada e de condições de trabalho compromete a qualidade dos serviços e atinge diretamente também aqueles que são responsáveis por prestá-los.
Há, portanto, uma convergência que nem sempre recebe a devida atenção: a população deseja serviços melhores, e os servidores públicos também. Ninguém conhece tão de perto as deficiências da administração quanto quem precisa enfrentá-las diariamente para realizar seu trabalho.
O Estado não está dispensado de buscar eficiência, corrigir distorções ou aperfeiçoar sua gestão. Pelo contrário. Valorizar o serviço público é também exigir que ele cumpra sua finalidade, utilizando os recursos da sociedade com responsabilidade e produzindo resultados concretos.
Mas essa tarefa não será bem-sucedida se ignorarmos o papel dos servidores. Não existe serviço público de qualidade sem profissionais preparados, respeitados e com condições de exercer suas funções.
Neste Dia do Servidor Público, gostaria que nossa reflexão fosse além das homenagens habituais. Que pudéssemos reconhecer que a valorização de quem serve e o direito de quem precisa ser atendido não são interesses opostos, mas partes de um mesmo compromisso.
Depois de tantos quilômetros percorridos, estou ainda mais convencido de que o Estado que a população espera é também aquele que nós, servidores, desejamos construir. Um Estado eficiente, presente quando necessário e capaz de responder às necessidades das pessoas.
Rodrigo Spada é Auditor Fiscal da Receita Estadual de São Paulo e presidente da Febrafite (Associação Nacional de Fiscais de Tributos Estaduais) e da Afresp (Associação dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de São Paulo). Formado em Engenharia de Produção pela UFSCar e em Direito pela Unesp, com MBA em Gestão Empresarial pela FIA.
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Artigo publicado publicado na Folha de S. Paulo. Clique aqui!
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